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O medo das duas da manhã, e o que um mestre chassídico ensina a fazer com ele
Pensar positivo raramente funciona de madrugada. A tradição judaica tem um caminho mais lento, que começa olhando o medo de frente.

São 2h14 e a Camila está acordada há mais de uma hora. Amanhã tem entrevista de emprego, o aluguel vence na sexta e a mãe ainda não respondeu a mensagem da tarde. Ela pega o celular "só para relaxar um pouco". Quarenta minutos depois está pior.
Quem já passou por uma noite assim sabe que o problema não é falta de informação. A Camila sabe que a entrevista provavelmente vai dar certo. Saber não ajuda. O corpo continua acelerado do mesmo jeito.
Ela não está sozinha nisso. Numa pesquisa do movimento Teach the Future Brasil, 62% dos jovens disseram ter medo do que pode acontecer com eles, e 78,5% citaram a ansiedade quando falam do futuro.
O conselho mais comum é ignorar o pensamento negativo e focar no positivo. Ajuda por uma tarde. Na madrugada seguinte a ansiedade volta, e ainda traz de brinde a culpa por não ter pensado positivo o bastante. A tradição judaica vai por outro lado: em vez de fugir do medo, começa olhando para ele.
Mais abaixo tem um convite para estudar esse tema ao vivo, em grupo. Antes, o mapa. Ver o convite ↓
Um mapa antigo
No século 18, o Baal Shem Tov, fundador do movimento chassídico, ensinou que qualquer mudança interior passa por três etapas. Em hebraico elas se chamam hachnaá, havdalá e hamtaká: submissão, separação e adoçamento.
O Rabino Yitzchak Ginsburgh, que vive em Israel e escreveu mais de cem livros, transformou essas três palavras num modelo de psicologia judaica. O livro dele sobre o assunto se chama Transforming Darkness into Light. A ideia de fundo é que a escuridão pode ser trabalhada, e não só evitada.
Aplicado ao medo, o mapa fica assim.
Primeiro, tirar a coroa do medo
Segundo o Rabino, a maior parte dos medos que tiram o sono é ilusória. Uns nascem da imaginação, que corre na frente e desenha o pior cenário. Outros vêm de uma ferida antiga que faz uma ameaça do passado parecer presente. Perigos reais existem e precisam ser enfrentados. Mas o medo do que pode acontecer não deveria mandar na sua vida.
Por isso a primeira etapa é parar de tratar cada preocupação como verdade. Tem uma humildade nisso: eu não controlo tudo, e nem tudo o que eu imagino vai acontecer.
Um jeito prático: escreva num papel o que está te preocupando. Do lado de cada item, responda se aquilo está acontecendo agora ou se é a imaginação correndo, e se depende de você. Nos itens que não dependem, escreva "isso não está nas minhas mãos" e leia em voz alta. Parece bobo até você fazer.
Esse é o tipo de tema que a gente abre com calma nas aulas ao vivo do Wisdom Rush, aos domingos, de graça. Dá para reservar a vaga aqui, leva meio minuto.
Uma aula por semana, ao vivo
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Depois, procurar o que o medo está protegendo
Olhe o que sobrou na lista. A tradição judaica não joga todo medo no lixo. Existe um medo saudável, que é cuidado com o que é precioso.
O Talmud conta de um estudioso que tinha medo de esquecer o que aprendeu. Ele não se desesperou. Rezou. O medo mostrou a ele que a memória era um presente, e não uma coisa garantida.
A segunda etapa é isso: achar dentro do medo uma gota de algo bom. No caso da Camila, por trás da ansiedade estão o amor pela mãe e a vontade de ter uma vida digna. A Camila se importa, e muito. Às vezes basta uma conversa com alguém de confiança para enxergar essa diferença.
Experimente completar a frase "o que eu tenho medo de perder aqui é...". A resposta quase sempre vira gratidão. Se você tem o hábito de rezar, vira uma oração.
Por último, deixar o medo rir
Essa é a parte mais estranha, e a mais bonita. Na Bíblia, Jacó chama Deus de "o Temor de Isaac". Isaac, Yitzchak em hebraico, quer dizer "ele vai rir". O Rabino lê aí uma promessa: o próprio medo pode virar riso. Numa aula sobre o tema, ele diz:
"Quando você faz de Deus a fonte do seu medo, Ele se torna uma fonte de riso."
Rabino Yitzchak Ginsburgh
Ele também fala de olhar a vida a partir do destino. Visto de lá, muita coisa que hoje parece o fim do mundo vira uma história que um dia a gente conta rindo. Pense numa preocupação de dois anos atrás. Provavelmente você sorri dela hoje.
Um conselho que aparece nos ensinamentos dele vale guardar: muita ansiedade vem de querer consertar tudo de uma vez. Uma etapa por vez já é muito.
A mesma madrugada, de novo
A Camila escreve a lista. Percebe que o "vai dar tudo errado" da entrevista é a imaginação, e que o silêncio da mãe deve ser só um dia corrido. Descobre que tem medo de perder a proximidade com ela. Lembra do pânico antes de uma prova no ano passado e acha graça. Separa a roupa da entrevista e manda para a mãe um áudio curto: "Te amo, a gente se fala amanhã." Os problemas continuam lá. Ela dorme.
Um aviso sério: nada disso substitui acompanhamento profissional. Se a ansiedade está atrapalhando o seu dia a dia, procure um psicólogo ou um médico. Em sofrimento intenso, o CVV atende 24 horas, de graça, pelo telefone 188.
Na obra do Rabino Ginsburgh, essas três etapas se abrem em muito mais coisa: como funciona a alma, o peso das palavras, como curar feridas antigas. Se você quiser estudar isso em grupo, o Wisdom Rush tem uma aula ao vivo por semana no Zoom, em português, com um professor que estuda há anos os ensinamentos do Rabino. A primeira é no domingo, 1º de novembro, às 19h (Brasília), e a aula vai até a última pergunta. Os 100 primeiros inscritos não pagam nunca, e não pedimos cartão. Reserve a sua vaga.
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A primeira aula é no domingo, 1º de novembro.
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Camila é uma personagem ilustrativa.